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PROGRAMAÇÃO: OUTUBRO 2015

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Jafar PANAHI
* TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM
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* ENTRADA LIVRE * sábado, 16h00

Sala de exibições Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão

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TÁXI de Jafar Panahi

Sinopse

Preso pela primeira vez em Julho de 2009, Jafar Panahi teve o passaporte apreendido e foi proibido de sair do Irão. Preso novamente em Março de 2010, ficou encarcerado em Evin, Teerão, até finais de Maio, saindo sob uma fiança de 145 mil euros; em Dezembro desse mesmo ano, foi condenado a seis anos de prisão e vinte anos de proibição de filmar ou de sair do país por, alegadamente, fazer “filmes críticos do regime”. Agora, neste falso documentário que decide fazer apesar das restrições legais que lhe foram impostas, Jafar Panahi instala uma câmara dentro de um táxi e segue pelas ruas de Teerão. À medida que vai encontrando clientes e os conduz ao destino, vai encetando conversa. Os assuntos abordados vão criando uma espécie de mosaico da sociedade iraniana e abrangem vários temas, desde a política nacional, os costumes locais ou mesmo a liberdade de expressão no Cinema.

Estreado no Festival de Cinema de Berlim em Fevereiro de 2015, “Taxi” recebeu o Urso de Ouro e o prémio Fipresci (atribuído pela Federação Internacional de Críticos de Cinema). Na ausência do realizador em Berlim, impedido de sair do Irão, foi a sobrinha (que também aparece no filme) quem subiu ao palco, emocionada, perante a distinção oferecida a Jafar Panahi.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título original: Taxi (Irão, 2015, 82 min.)
Realização e interpretação: Jafar Panahi
Classificação: M/12
Estreia: 9 de Julho de 2015
Distribuição: Midas Filmes

Clandestino
Vasco Câmara, Público de 9 de Julho de 2015

O tour de force de Táxi é a fidelidade a um mundo paralelo e subterrâneo, com figuras condenadas à ilegalidade. Como Jafar Panahi, que entrou para dentro do seu cinema.

Num movimento inverso de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, em que uma personagem saía do ecrã para o chamado mundo real nos tempos de Depressão, o cineasta iraniano Jafar Panahi foi empurrado para dentro do seu cinema em Isto Não É Um Filme (2011).

Foi o primeiro que realizou após a proibição, pelas autoridades iranianias, de trabalhar como cineasta durante os 20 anos que se seguiriam.

Táxi, após Closed Curtain (2013), é o terceiro filme de uma existência que foi condenada à clandestinidade. Há ironia, tragédia e escândalo nisto, nesta possibilidade de lermos tão facilmente, ou correndo o risco de leviandade, a coincidência entre as vidas que Panahi ficcionou nos filmes anteriores (as mulheres de O Círculo, em 2000, o vendedor de pizzas de Sangue e Ouro, em 2003, a rapariga impedida de assistir a um desafio de futebol de OffSide, em 2006...) e a vida actual do realizador: acedeu à condição de personagem do seu cinema. Como se tivesse passado toda uma obra a mostrar pessoas enclausuradas, a explicitar a vida cercada no Irão (a Teerão de O Círculo, que se estreou no Festival de Veneza em 2000, foi uma primeira vez para um público ocidental e permaneceu invisível para os espectadores iranianos), e dessa forma involuntariamente desenhando a sua clausura.

Há aquele momento, em Isto Não É Um Filme, em que Panahi desenha no chão os muros que cercam a personagem de um argumento que nunca chegou a filmar e que contaria a história de uma rapariga que os pais não deixaram que se matriculasse na faculdade e encerraram em casa. Isso levou o co-realizador desse filme de 2011, Mojtaba Mirtahmasb, a ironizar sobre um novo género cinematográfico, constituído com os making of dos filmes que os cineastas iranianos nunca conseguiram fazer. Há uma actualização, um upgrade, em Táxi: parece divertir Panahi – é preciso matizar esse divertimento com a frustração, com o desespero mesmo – a forma como, através das pessoas que entram no táxi e o reconhecem como o realizador do filme X, o cinema aparece com tonalidades premonitórias, como se os filmes que Panahi realizou tivessem já anunciado o que lhe iria acontecer, e simultaneamente como prova insanável da realidade, pois nenhum código de censura para formatar um filme “distribuível” a pode rasurar – é isso que aprende, sob o olhar do tio Jafar, a sobrinha do realizador, sempre com a pequena câmara em punho.

O tour de force aqui não é formal. Táxi não é habitado nem pela vertigem de O Círculo (Leão de Ouro em Veneza, talvez a obra-prima do realizador) nem pela implacável abstracção de Isto Não É Um Filme – ambos concretizando a aliança de beleza e crueldade de que a cinematografia iraniana continua a ser cultora, vampirizando e simultaneamente deixando-se consumir por personagens.

No lugar disso, há, de um lado, a vontade de, tendo Panahi acesso ao exterior, circulando pelas ruas de Teerão com o seu táxi (permanecem misteriosas as circunstâncias em que o pode fazer; que “pacto” existe, se é que existe, entre as autoridades e um condenado?), querer meter o mundo dentro do seu carro. O que acusa um certo pendor de representatividade temática no filme – matizando o mistério, perturbação central do cinema iraniano, sobre a condição das figuras que entram naquele táxi: são pessoas ou personagens, é documentário ou ficção, falam espontaneamente ou dizem diálogos?

Depois, há uma espécie de bonomia, um certo paternalismo mesmo, neste cineasta clandestino, como se parte do filme correspondesse à necessidade – compreensível, dada a situação a que foi condenado – de se caucionar como cineasta, de mostrar o seu património, de dar a ver a sua existência e obra como provas.

O tour de force de Táxi é então, apesar dos condicionalismos em que foi feito – talvez por causa deles –, a fidelidade a um mundo paralelo ou subterrâneo, com personagens condenadas à invisibilidade, com corrupios sem saída, tal como as movimentações circulares de O Círculo que se estancavam quando o rectângulo das janelas do cárcere se fechavam sobre as personagens – o táxi também é vandalizado, estancado no final. Como se o filme fosse cumprindo – é o andamento final, e esse movimento deixa marcas que se sobrepõem às lições de Panahi à sobrinha – a sua condição clandestina. Roubos e outros delitos – dentro e fora do carro –, um filme como peça de uma cadeia de tráficos diluindo-se nela. Não chegou Isto Não É Um Filme a Cannes numa pen dentro de um bolo?

Quando tudo começa em Táxi, a câmara que Panahi utiliza para filmar o interior do carro é confundida com um instrumento anti-roubo. Não, é um instrumento de roubo: é uma câmara de cinema.

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