CINECLUBE DE JOANE

Dezembro 2024
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Francis Ford Coppola
5 DEZ 21h45
de Andrés Ramírez Pulido
12 DEZ 21h45
de Coralie Fargeat
19 DEZ 21h45
de Maurice Pialat
26 DEZ 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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26 21h45

LOULOU Maurice Pialat


Já Não Há Cinéfilos?!, Maurice Pialat, Outro País, Outro Cinema

Nelly, uma mulher burguesa com uma vida organizada, conhece uma noite Loulou, um jovem perdido. Violentamente expulsa pelo marido, ela vai viver com ele. Em pouco tempo fica grávida, mas Loulou não muda a sua vida de marginal, que divide entre os amigos e os pequenos assaltos nocturnos. Duas vedetas e um assunto da moda, as relações afectivas entre pessoas de classes diferentes, foi ilustrado por diversos filmes franceses deste período. Mas Pialat domina de tal forma o seu ofício que supera todas as armadilhas da moda do star system e do naturalismo, e o resultado é totalmente convincente, prefigurando o seu trabalho com o espaço e com os actores em "À Nos Amours".

Título Original: Loulou (França, 1980, 110 min)
Realização: Maurice Pialat
Interpretação: Isabelle Huppert, Gérard Depardieu
Argumento: Arlette Langmann, Maurice Pialat
Produção: Yves Gasser, Klaus Hellwig
Fotografia: Pierre-William Glenn, Jacques Loiseleux
Montagem: Sophie Coussein, Yann Dedet
Distribuição: Leopardo Filmes
Classificação: M/12
Maurice Pialat: o amor existe e dá luta Por À pala de Walsh Viagem sentimental quanto baste pelo cinema feroz, por vezes, frio e difícil (que morde, agride e punge) do cineasta francês Maurice Pialat, alvo de um ciclo organizado pela Leopardo Filmes. Este amor que existe é duro, por vezes estatual, mas outras vezes a estátua ganha vida, qual mito do Pigmaleão, sucumbindo à errância. E ao movimento errático da vida. Esta Sopa de Planos walshiana é como uma sopa da pedra bem substancial. Agarre-se à colher e prepare o estômago! Pensar em estátuas leva-me, imediatamente, ao cinema de Alain Resnais, mas também aos corpos do grande cinema soviético (à cabeça, Dovzhenko) que, não sendo feitos de pedra, parecem sempre impor-se como monumentos vivos de uma revolução em curso ou sonhada. Logo depois vou parar, na viagem da minha mente, a um dos primeiros filmes de Maurice Pialat, lançado em 1960, sobre a vida na pululante área suburbana de Paris, habitada por uma depauperada – e esquecida – classe trabalhadora. Na realidade, isolo aqui o penúltimo plano do filme: o da mão do anjo que, visto de frente, parece ordenar e dirigir, mas, neste ângulo, se lança no vazio, pedindo clemência, salvação. O registo sorumbático deste retrato das banlieues diz já algo sobre a natureza convulsa e desesperada do cinema de Pialat. Há sempre uma dureza e uma frieza difíceis de encarar nos melhores filmes do cineasta francês, mas também estas são atravessadas pelo tal ângulo a partir do qual a mão se lança… como quem “pede uma mãozinha”. A dureza quebra, rui e aí vemos o outro lado das coisas. O filme tem um título que se racha ante aquilo que seria a desperançada escalpelização das relações amorosas nas obras de Pialat dos anos 70, sobretudo Nous ne vieillirons pas ensemble (Quando o Amor Acaba, 1972): “o amor existe”.
Luís Mendonça
François Fournier é o nome do menino de 10 anos que, em L’enfance nue (A Infância Nua, 1968) – primeira longa-metragem de Maurice Pialat, comercialmente inédita em Portugal –, se encontra entregue aos serviços sociais franceses e está destinado às sucessivas mudanças de casa e de família de acolhimento. Estação tão importante na construção identitária do ser humano, a infância que habita em François atravessa uma multidimensionalidade a ser decifrada à medida que a narrativa vai tomando forma. O primeiro traço apresentado denuncia-nos a desobediência e a violência, visíveis em atos como mentir e roubar, e o segundo revela-nos a ternura e a inocência, espelhados na fragilidade demonstrada após o falecimento da avó, Marie Marc, e na troca de afetos com o pai, René Thierry. Visualizando as diferentes dimensões dispostas numa corda bamba, as múltiplas cenas retratadas por Pialat fazem crer que, a qualquer momento, uma das dimensões irá aniquilar a outra, significando o seu apagamento. É, então, que o cineasta francês desconstrói a criação de juízos de valor e demonstra que a candura e a rebelião podem coabitar neste limbo, originando-se, assim, um lugar de empatia resultante da compreensão de que a ideia e imagem de estabilidade foram sempre, para o pequeno François, uma miragem. Conhecendo os cantos à nova casa, François compõe o plano surgindo enquanto observador atento, espreitando pela brecha da porta que dará entrada para o quarto da avó, configurando-se- lhe, aqui, um simbolismo que capta algumas notas evidenciadas ao longo do filme. Em primeira instância, coloca a tónica no sentido da atenção, centralizada por François, e persistentemente procurada pelo próprio nos diversos momentos de interação com aqueles que o rodeiam; por outro lado, o rosto semivisível remete para a ideia da intencional ausência de enquadramento pormenorizado sobre o seu passado, pois mais do que oferecer explicações ou proporcionar respostas, Pialat procura – recuperando, uma vez mais, a ideia da observação e da contemplação – olhar e “beber” dessa realidade. O mesmíssimo retrato da realidade que se acentua no modo como, num par de cenas, após a saída de personagens, Pialat prolonga a captação dos planos, filmando, assim, os espaços, agora vazios. Espaços, esses, que, percecionados por François, serão sempre passageiros e efémeros. Desenquadrados da forma como as circunstâncias da vida o moldaram enquanto ser humano.
Beatriz Fernandes
Um homem armado de uma câmara de filmar avança furioso, como se investisse contra a multidão. No início da sequência, Jean (Jean Yanne) expulsara a namorada, Catherine (Marlène Jobert), que procurava auxiliar o realizador na captação do som. Nous ne vieillirons pas ensemble (Quando o Amor Acaba, 1972), a segunda longa de Maurice Pialat, decalca a conturbada vida sentimental e artística do cineasta (na adaptação de um romance que escrevera), entregue a uma solidão que parecia procurar, e provocar com as suas acções, como se dela necessitasse para prosseguir. A relação do casal oscila entre rupturas e apaziguamentos proporcionados por encontros com o mar, com uma ondulação também expressa pelas inúmeras viagens de carro, por mudanças de direcção, fugas e regressos. Quando a relação termina, o protagonista, enquanto procura lidar com a rejeição, lê a Catherine um fragmento da última carta de Cesare Pavese: “Costumava achar a vida horrível, mas ainda me achava interessante. Agora é o oposto. Sei que a vida é maravilhosa, mas sinto-me excluído”.
Se Nous ne vieillirons pas ensemble resultaria num surpreendente êxito de bilheteira, o filme seguinte, La gueule ouverte (A Vida Íntima de Um Casal, 1974), uma dura viagem aos lugares da convalescença e da morte, haveria de constituir a primeira frustração de Pialat na relação com o público. Mas a sua fúria jamais se esbateria, na vontade de mostrar outro país, outro cinema, à distância dos camaradas da Nouvelle Vague. Filmes sobre a intimidade, sobre famílias (com os pais de Pialat a pairarem como fantasmas), rodados por entre cólera e barulho, como na invasão do plateau de À nos amours (Aos Nossos Amores, 1983), que espantou actores e personagens. E quando o apaziguamento parecia ter chegado, na atribuição da Palma de Ouro a Sous le soleil de Satan (Sob o Sol de Satanás, 1987), ao invés da aclamação, Pialat recebeu o confronto sob a forma de uma pateada. Uma rejeição que o seu filme antecipara; quando Depardieu é expulso da sua paróquia, recebe de Maurice Pialat, um sacerdote mais velho, o seguinte ditame: “Você não nasceu para agradar. O mundo odeia o seu desejo de poder. Quando vencerá a desconfiança e a oposição dos outros? A negação de todos? Nunca irão deixá-lo.”
Vítor Ribeiro
É para mim difícil separar La gueule ouverte (A Vida Íntima de Um Casal, 1974) de dois contos de Annie Ernaux, Um Lugar ao Sol e Uma Mulher. Não foi apenas a coincidência temporal entre a leitura da obra de Ernaux e a (re)descoberta de Pialat num ciclo da The Criterion Collection, que tornou estes objectos tão íntimos. Foi antes a crueza, o retrato social, os temas e a terna honestidade de ambos, que une tão profundamente o universo literário de Ernaux ao universo cinematográfico de Pialat. Ambos retrataram a mesma França, o mesmo tempo cronológico, as mesmas gentes, a mesma classe social e os mesmos problemas. Conheciam-se e Pialat quase que adaptou um romance de Ernaux, mas mais do que este contacto, acredito que estamos perante um laço mais abstracto, uma afinidade electiva. Há ainda um aspecto comum a ambos: são de certa forma figuras malditas, visto que Pialat era detestado pelos seus pares [basta relembrar o discurso de Pialat em Cannes, ao receber a Palma de Ouro pelo filme Sous le soleil de Satan (Sob o Sol de Satã, 1987)], assim como Ernaux era detestada pelas feministas que sempre encararam a obra desta escritora como desvario de “doméstica”.
Mas falemos de Pialat e desta obra em concreto. Pialat foi sempre um realizador excepcional do primeiro ao último filme. Foi por isso difícil escolher um plano de Pialat, apesar do impacto que este filme e L’enfance nue (A Infância Nua, 1968) tiveram em mim. No entanto, se a escolha acabou por recair em La gueule…, e em particular sobre este plano (quase) final, é porque este filme é talvez a obra onde Pialat sublimou o seu modo de fazer cinema. Cada filme parece um pedaço de um momento autobiográfico, mesmo quando se trata de abordar a figura de Van Gogh ou de um inspector da polícia. Porque há uma proximidade de tal ordem funda com o universo que cada filme aborda, com as pessoas e os gestos que o povoam, com as situações e os acontecimentos que se desenrolam, com o trabalho de câmara analítico, que várias vezes julgamos que esta capacidade perscrutadora de Pialat só existe porque este foi arrancado à crueza da vida. É talvez por isso que ainda hoje haja anticorpos em relação ao universo de Pialat, porque nem sempre se está preparado para o rude golpe que cada filme representa. Mas Pialat é mais do que isso, pois a honestidade e a ternura do seu cinema foram sempre superiores à implacabilidade do mesmo. Pialat foi um realizador justo e íntegro, mesmo quando a doença e a morte invadem o ecrã. Exemplo disso é este filme, a relação do personagem com a mãe e sobretudo uma ética de filmar que em momento algum se torna voyeurista [e podíamos dar um filme que se encontra nos antípodas deste gesto, que é o obsceno Amour (Amor, 2012) de Michael Haneke, tão celebrado e aclamado], respeitando sempre a dor e a morte em todos os seus momentos (não os esconde, mas nunca os explora e é essa a coragem do cinema de Pialat).
Bernardo Vaz de Castro
Nenhum outro filme mapeia, para mim, a obra do homem que dizia não querer ser amado do que Loulou (1980). A memória de o ver pela primeira vez (especialmente numa idade formativa) é a memória da infiltração da ternura. Quando o revi uns anos mais tarde, revi a ternura e a infantil doçura e não o que estava à minha frente, em toda a sua vulgaridade. Mais pintado do que iluminado, Loulou conduz um absoluto e constante agarrar, entrecruzar e libertar de corpos num mundo de esmagadoras contradições. O esqueleto pode ser a narrativa classista, mas o radicalismo prende-se nas sinapses dos acordares sexuais de protagonistas que Pialat acompanha vislumbrado, e por vezes até segue, ora por quartos ora por becos parisienses. Em poucas palavras, a bela burguesa Nelly (Isabelle Huppert) deixa o marido André (Guy Marchand) pelo homem-besta/criança proletário Loulou (Gérard Depardieu). Numa série de pequenos episódios, Nelly vai saltando de um para o outro e a entropia de Pialat instala-se pelo triângulo. Até que, algures entre o coma dos dias e a melancolia da vida nocturna, algo acontece que tanto pára Nelly e Loulou de se empurrarem um ao outro contra cantos, como faz com que o façam ainda mais.
Muitos planos poderia ter escolhido, mas vi neste a composição comportamental de Pialat do casal heterossexual (as luzes branco-azuis propagam o abandono). Um fosso ainda maior que as classes sociais são as políticas sexuais que separam um homem e uma mulher. Aqui, o marido que a olha, olha-a depois de lhe bater na cara num ataque violento de ciúmes. Frustrada com tamanha misogínia, Nelly rir-se-á dele, mas primeiro vira-lhe a cara por segundos, morde as unhas suavemente e imaginamos nós que imagina uma vida que não a sua. Mais à frente no filme, enquanto andam pelas ruas de Paris, este quer saber sobre como é viver no hotel com Loulou. “Fecho a porta e esqueço o mundo”, Nelly diz-lhe. Loulou é precisamente a permanência e evolução desse lamento, embrulhado no toque mais sensual, ainda que bruto mas também enfarinhado, das histórias dos errantes cheios de alma que nunca começam nem acabam. Pialat faz das tripas o coração.
Susana Bessa