CINECLUBE DE JOANE

Dezembro 2024
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Francis Ford Coppola
5 DEZ 21h45
de Andrés Ramírez Pulido
12 DEZ 21h45
de Coralie Fargeat
19 DEZ 21h45
de Maurice Pialat
26 DEZ 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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19 21h45

A SUBSTÂNCIA Coralie Fargeat

“Já sonhou com uma versão melhor de si mesma? Deveria experimentar este novo produto. Isto mudou a minha vida. Com A Substância, você pode gerar outra versão de si mesma, mais jovem, mais bonita, mais perfeita…". Demi Moore interpreta uma estrela em decadência que usa uma substância ilegal para obter uma versão jovem de si mesma a partir de um processo de replicação de células. A versão jovem de Demi Moore é interpretada por Margaret Qualley e as duas personagens devem coexistir para sobreviverem. Vencedor de Melhor Argumento no Festival de Cannes.

Título Original: The Substance (França/Grã-Bretanha/EUA, 2024, 140 min)
Realização e Argumento: Coralie Fargeat
Interpretação: Demi Moore, Margaret Qualley, Dennis Quaid
Produção: Coralie Fargeat, Tim Bevan, Eric Fellner
Fotografia: Benjamin Kracun
Montagem: Coralie Fargeat, Jérôme Eltabet, Valentin Feron
Distribuição: Pris Audiovisuais
Estreia: 31 de Outubro de 2024
Classificação: M/16
A Substância. A mulher que viveu duas vezes, entrevista com Coralie Fargeat Vasco Câmara, Público de 30 de Outubro de 2024 Coralie Fargeat fala do filme que fez dela uma versão melhorada de si mesma. Sob a féerie, há um monólogo combativo sobre o encanto total e o poder totalitário do cinema. É um dos títulos do ano.
É ela o monstro, criatura bicéfala. Nascida em Paris, onde frequentou o curso de cinema de La Fémis, a sua cinefilia foi alimentada à base do consumo de cinema americano. Mas a realizadora de A Substância/The Substance, uma segunda longa-metragem concretizada em contexto de co- produção internacional e com uma vedeta americana, Demi Moore, diz professar o cinema como "arte".
Haverá aqui algum mal-entendido? Em ambos os lados do Atlântico, Coralie Fargeat, 48 anos, pode ser vista como uma excentricidade, senão mesmo como uma bizarria: na indústria americana afirma o seu caso como o de uma autora; em França fizeram-lhe já sentir que o cinema de género que ela pratica, entre o filme de vingança (a sua estreia na longa-metragem aconteceu em 2017 com Revenge, rape & revenge movie feminista) e o body horror, não cabe ali, no imaginário com que a cinematografia francesa se projecta dentro e fora de portas: o naturalismo e o humanismo. Por isso é um peixe fora de água.
Coralie está a ser conduzida por Paris em direcção ao seu destino. Não sabemos qual é, mas sabemos, é um acordo tácito porque nada foi verbalizado, que esta conversa por telefone, que ela prefere que decorra em inglês ao mesmo tempo que dá indicações em francês ao condutor da viatura, durará o tempo que durar a viagem. Quando acabar uma, acabou a outra. É uma conversa sob uma espada de Dâmocles. Enganos de percurso ou trânsito congestionado são por isso desejados, bem-vindos. Fazemos figas — e dará certo, "Non, c'est pas ici...", a certa altura ouvir-se-á a passageira dizer e o percurso terá de ser reiniciado...
Vestirá Coralie um sobretudo amarelo intenso como a protagonista do filme (Demi Moore/Elisabeth Sparkle) que esvoaça em direcção ao bas-fond de uma luminosa e plastificada LA, desesperadamente em busca da substância que fará dela uma versão melhorada, mais jovem, mais próspera, de si própria (Margaret Qualley)?
"É uma questão relevante que de facto me define", diz Coralie. E ri-se — refere-se à relevância da bicefalia, não à cor amarela; essa ficará na nossa imaginação. "Acho que tenho em mim os dois lados, o americano e o francês. Cresci com filmes americanos que alimentaram a minha criatividade e imaginação. Mas também via filmes franceses." Está impregnada, por cultura, até por imperativo cívico, da ideia de "defender o cinema". É uma bandeira e uma postura. "Vejo-me como pertencendo a ambos os mundos: de um lado, estou perto do sonho maior que os EUA podem facilitar, mas, em simultâneo, sendo europeia, e francesa, necessito de controlo artístico. Porque na minha visão o cinema é uma arte."
Não lhe gabam necessariamente o gosto ou a escolha — o cinema de género. A inclusão de A Substância no concurso da edição 2024 do Festival de Cannes foi evidentemente uma consequência directa da Palma de Ouro atribuída em 2021 a Titane, de Julia Ducournau. Para o bem e para o mal, é uma dívida.
Uma fronteira parece ter sido abolida então (mas é preciso verificar, to be continued...), ruptura para a qual tinha contribuído a vitória de Parasitas, de Bong Joon-ho em 2019. A Palma de Ouro a Wild at Heart/Um Coração Selvagem, de David Lynch (1990), foi um momento anterior em que uma fábula grotesca rasgou os protocolos do festival e já então com uma criatura que esvoaçava, no caso uma bruxa má, a Marietta Fortune de Diane Ladd — mas nesse caso o "filme de género" era o "género Lynch", o que num festival europeu facilita as coisas.
"Na conferência de imprensa [que anunciou a programação deste ano] de Cannes, Thierry Frémaux [delegado-geral do festival] disse que um filme para ser bom tem de ser dirigido de forma brilhante, não interessando se é um 'filme de género' ou não. É fantástica a abolição destas barreiras a separarem o que supostamente é elevado e o que não é elevado. O cinema é um meio de emoções intensas que nos faz sentir coisas e nos dá coisas para pensar. Os filmes de género são o meio perfeito para isso porque são ao mesmo tempo divertimento e políticos, lidando com assuntos importantes. É sempre uma luta conseguir financiamentos. Mas há coisas que se tornam possíveis quando se provou já algo: quando o que se fez antes teve sucesso. Não poderia ter feito A Substância da forma que o fiz se não tivesse feito Revenge, que foi muito bem recebido nos EUA e me abriu portas."
Para limpar desde já o terreno: A Substância é um enorme salto em frente se compararmos com Revenge, filme que às tantas se tornava uma espécie de Rambo no feminino, gráfico e grandiloquente, pura superfície, o que levou feministas a questionar o feminismo dessa história de vingança por integrar os estereótipos que denunciava. Saltemos por isso em frente em termos de substância.

O monstro da beleza


Quando nos aproximarmos das cerca de duas horas e meia do filme em que Elisabeth Sparkle/Demi Moore, tendo chegado à idade em que os produtores do espectáculo desistiram dela, faz um pacto com the substance, aceitando regras draconianas mas que permitirão que possa continuar a existir como uma jovem Sue/Margaret Qualley, estaremos à beira do final à ópera rock de A Substância. Já teremos passado por David Cronenberg (um orifício é um orifício, é um orifício...), pelo Kubrick de 2001 Odisseia no Espaço (1968), através do Assim Falou Zaratustra de Richard Strauss, e de Shining (1980); também pelo D. Jekyll e M. Hyde, pelo monstro de Frankenstein, pelo Capuchinho Vermelho (amarelo...), pela Gata Borralheira..., por todas as fábulas que nos formaram e violentaram.
Estaremos então no ápice de um grotesco musical, uma féerie que é inusitada para os espectadores com os hábitos assépticos de hoje e que parece mais contemporânea daquilo que no seu tempo pôde ser O Fantasma do Paraíso (1974). Lembram-se? Portanto, é território de Brian de Palma também. Povoado ainda por marcas de outro dos seus títulos dos anos 70, Carrie (1976), numa sequência, a do espectáculo televisivo de Ano Novo, na qual foram gastos 21 mil litros de (falso) sangue. É o momento em que o monstro composto pelos rostos e corpos de Demi Moore e Margaret Qualley, duas que são uma em nome do pacto com a beleza, explode e vomita sobre os espectadores.
O que aparenta ser, pela descrição, uma colecção de citações, uma construção à base da acumulação, começa a mostrar a sua substância diversa: é mais, afinal, e daí a singularidade da proposta, um gesto de destruição, um acto de vingança. É um ventre atafulhado e intoleravelmente enjoado com aquilo que esteve a comer.
A Substância é mais autoconsciente, mais culto, mais sabedor de onde vem — do exploitation e do cinema experimental — do que o seu "primo" Titane e por isso é capaz de hiperbolizar com ferocidade toda a sua (auto)ironia. E é também mais corajoso do que o fenómeno Barbie, o tal filme de Greta Gerwig que colocou nos píncaros o conceito de blockbuster de autor que voltou recentemente ao lugar de partida mais humilde com a performance baça de Joker: Loucura a Dois nas bilheteiras.
Por comparação, A Substância, que nunca será um blockbuster, é afrontoso. Até porque está mais perto do cinema do que da televisão e partiu menos comprometido com a indústria, sem o caderno de encargos que fez Gerwig e o seu co-argumentista Noah Baumbach terem medo de profanar vários templos e optarem por ziguezagues dóceis, toureando até o feminismo. The Substance é substancialmente profanador.
"É uma vingança, sim. É uma forma, para a personagem, de acordar a sociedade, 'vejam o que nos estão a fazer, acordem, isso tem de acabar'", concorda Coralie. "É a sua forma de expressar toda a violência com que tem de lidar, com tudo o que a fez acabar como acabou. Sim, pode ler exactamente como está a ler." Isto é, que o filme utiliza a cinefilia não como mera homenagem, antes como campo de questionamento e batalha, como vingança.
"Como mulher, se não me pareço com o modelo que me dizem que devo imitar, sinto que sou um monstro. Senti isso. Era um monstro porque não era parecida com os modelos que me apresentavam. No final de A Substância, o monstro materializado é o primeiro momento em que ela [a personagem de Elisabeth Sparkle] aprende a amar-se. É um momento de auto-indulgência, de amor-próprio: 'Vou colocar os brincos e apresentar-me ao mundo porque mereço existir como toda a gente.' Isto é: pegar no monstro que está em nós e entender que é isso o que somos. A sociedade responde com gritos, com violência, porque não a quer ver, não a quer aceitar. Mas a explosão final é a maneira de a personagem responder: 'São vocês os responsáveis'."
"Sim, o ADN do projecto", continua Coralie, "era tirar tudo o que estava dentro de mim em termos da violência extrema que sempre senti pela forma como a sociedade nos pressiona e torna impossível que nós, mulheres, nos amemos a nós próprias. Essa violência cresceu desde que sou miúda e teve impacto na minha relação com o mundo. Precisava de colocar isso cá fora neste momento da minha vida. Também queria continuar a explorar o que comecei com Revenge: porque é que gosto de fazer filmes, porque é que eles são meus e de mais ninguém? Descobri que é na extrema sinceridade e liberdade que encontro o meu tom para contar a história. Não penso que nasçamos do nada. Somos feitos do que vimos, do que lemos, daquilo com que crescemos. Cresci a ver filmes exclusivamente realizados por homens e entrei nesses universos. O cinema era aquilo que me fazia sentir viva. Eu era alguém que se sentia aborrecida com a vida e era nos filmes que se sentia forte, poderosa, livre. Esses filmes fazem parte de mim e da minha criatividade. Uso [esse legado] de forma a torná-lo meu para dar de novo ao espectador o que senti quando os vi. O cinema é um círculo, é algo que passamos à geração seguinte. E é interessante que, havendo mais cineastas mulheres, possa haver um outro ponto de vista na forma de usar o género, na forma de usar o body horror."

O momento Vertigo


Body horror, ou horror biológico: a identificação e simplificação do género requerem uma precisão, até uma correcção. É que haverá, já houve aliás, a tendência para identificar A Substância com o universo cronenberguiano. Servindo isso até para denegrir o filme, fazendo dele uma lapa, uma incrustação, o que aliás, e ironicamente, até seria cronenberguiano.
Uma "versão feminista de..." já apareceu aqui e ali, o que sendo óbvio (um orifício é um orifício, é um orifício) é apenas ver à superfície. Não há nada de intrinsecamente — para não dizer de novo substancialmente — cronenberguiano em Coralie Fargeat. Não se pode afirmar: eis um universo encantado pelos mistérios do organismo. Não. Cronenberg, como De Palma, como Frankenstein ou Dr. Jekyll e Mr. Hyde são referências e mitos convocados como num diário da exposição às imagens de uma espectadora que se tornou cineasta.
Se a prodigalidade desse conteúdo não impedir que nos agarremos ao mais óbvio, atentemos então no que é (quase) subliminar e potente: os acordes que Bernard Herrmann compôs para Vertigo, de Alfred Hitchcock (1958). Intrometem-se no delirante pedaço final de A Substância. Formam a sinédoque que reside no centro do filme. Porque é o cinema que está em causa, não Cronenberg; é todo o cinema como fabricante de imaginários. Esse filme, em que Kim Novak era obrigada por James Stewart a ser uma fantasia, a parecer-se com uma morta, e esse cineasta, Hitchcock, sobre todos os outros o grande manipulador, ficam como abóbada de uma capacidade de infiltração mental, apogeu de criação e simultaneamente de destruição.
Propomos então a Coralie — e já agora ao espectador de A Substância — que se esqueça o ruído cronenberguiano e se eleve o tom de uma música mais maviosa e venenosa, o seu encanto total e o seu domínio totalitário. De caminho, que se escute no centro da fábula grandguignolesca um monólogo de uma personagem e um monólogo de uma cineasta, ambas ao espelho com os seus fantasmas. A Substância é um filme com poucos diálogos, passando-se tudo nos labirintos de uma mente, o que nunca escondem os décors e o guarda-roupa do filme — aquele casaco amarelo... É uma bela síntese de abstracção sem cair na rêverie, apelo ainda do realismo que não desgruda — e sempre o mesmo corredor a petrificar-se. Propomos isso e dizemos a Coralie: sem querer excessivamente intelectualizar, essa sequência com a música de Vertigo é o âmago de A Substância, participa do ensaio que existe no filme sobre a relação de devoração entre espectadores e imagens.
"Adoro isso, o cinema como construtor da nossa relação com a beleza e com a fealdade. Quando escrevo ou quando monto, uma parte disso é muito instintiva. Não estou a intelectualizar também, mas sei que se a cena aparece na página ou no ecrã tem uma razão de ser. Certamente é algo de importante e por isso tem de ser preservado no processo. Em determinado momento entenderei porque é que saiu dessa forma. Essa cena em que o monstro se prepara, coloca os brincos, junta todas as cenas com estrelas de cinema que vimos nos filmes e que foram criadas por homens que consideraram o que é que era belo e perfeito, qual a imagem pela qual merecíamos ser amadas." O "momento Vertigo", como Coralie lhe chama, não era suposto acontecer. "Quando estava a montar o filme, não tinha compositor ainda escolhido, comecei por utilizar faixas de música, umas dez, e a de Bernard Herrmann era uma delas. Estava ainda à procura da música que representasse 'a beleza' nos filmes. A de Vertigo representava todo o cinema com que eu cresci e que me disse o que era a beleza, o que era delicado. Ia muito bem com a cena. Encontrei o compositor e começámos a trabalhar juntos para ele fazer algo com essa cena. Acabámos, no entanto, por achar que as faixas que eu tinha usado [na versão de montagem] eram melhores a dar essa ideia."
E depois há Demi Moore, exposta, profanada, puxando pelo físico, rasgando limites, bela versão de si própria. Tem hoje 61 anos aquela que foi uma estrela nos anos 1980 e 90 e depois atravessou um período errático da sua carreira. "Quando escrevi o filme, percebi logo que o casting seria a fase mais desafiante do processo porque eu queria uma actriz icónica", que estivesse estado no centro do star-system mas que já tivesse perdido essa posição, "e sabia que lhe ia pedir que se confrontasse com as suas piores fobias. Seria delicado". Sem Demi não haveria filme? "Eu sabia que o filme existiria apesar de tudo: ele tinha de sair para o mundo. Era algo que tinha em mim e nada podia impedir que saísse. Mas enfrentei muitos nãos, de facto. Mandei finalmente a Demi, discuti isso com o meu produtor e ambos achámos que era uma boa ideia. Mas eu tinha a certeza que ela não ia aceitar. Achei que não estava pronta para jogar com a sua imagem dessa forma."
Demi aceitou. E quando, antes de a encontrar, Coralie leu a autobiografia da actriz, Inside Out: A Memoir, publicada em 2019, percebeu que ela lutara ferozmente para se impor num mundo de homens e que se encontrava agora numa fase da vida em que procurava a sua reconstrução. Instintivamente, Demi Moore percebeu que Elisabeth Sparkle era a sua oportunidade de monólogo.
"Na verdade, a rodagem não foi difícil. Quando decidimos que trabalharíamos juntas, tivemos uma conversa decisiva. Era necessário que eu lhe dissesse tudo o que eu queria fazer. Para que me sentisse bem comigo própria. Um actor e um realizador têm de querer fazer o mesmo filme. O argumento é uma visão. Ela teve a inteligência de o perceber, de perceber que tudo estava desenhado na minha cabeça. Expliquei-lhe tudo da realização, do som, do visual e tudo o que iria interagir com a sua performance. Por isso também a questão das cenas de nudez. E as condições da rodagem: em França, com uma equipa mais pequena do que ela estava habituada na América. Era importante que ela tivesse isso na cabeça antes de dizer 'sim'. As coisas funcionam quando se tem o mesmo paradigma artístico. A rodagem correu bem, tendo em conta que há sempre altos e baixos numa rodagem, às vezes é difícil, às vezes é bom, quase sempre é cansativo, mas quisemos as duas fazer o mesmo filme. É por isso que foi o casamento perfeito." Coralie Fargeat acaba de chegar ao seu destino.