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Depois de ter sido condenado por homicídio, Eliú é enviado para um centro de reabilitação para
menores situado no interior da selva colombiana. Durante o cumprimento da pena, os jovens que
ali se encontram são obrigados a fazer trabalho físico e a uma intensa terapia de grupo. Quando o
revoltado El Mono, melhor amigo e cúmplice no crime de Eliú, é transferido para o mesmo lugar,
eles vão ver-se a reviver circunstâncias que preferiam esquecer. Estreia em realização de Andrés
Ramírez Pulido, um filme dramático que recebeu o Grande Prémio da Semana da Crítica no
Festival de Cinema de Cannes e que foi nomeado para um Goya na categoria de melhor filme
ibero-americano.
Na abertura da sessão, no âmbito da rede shortcutz, será exibida a curta-metragem By
Flávio (2022, 27 min) de Pedro Cabeleira: Márcia gostaria de ser influencer no
Instagram, mas também de sair com o rapper Da Reel Chullz. No meio está um pequeno
entrave, o seu filho Flávio.
A febre da selva, Vasco Câmara, Publico, 23 de Novembro de 2023 A garra visual de Andrés Ramirez Pulido é a primordial força expansiva de O Éden. Deixa vestígios de uma lúgubre pantomima sobre a transmissão.
No original La Jauría, que poderíamos traduzir como A Matilha, O Éden (2022) passou a designar internacionalmente a estreia na longa-metragem do colombiano Andrés Ramirez Pulido. É, ao retomar o título de uma sua curta-metragem de 2016, uma opção de tradução oportuna e bem informada.
Tudo se passava, nessa curta, num health resort abandonado, prestes a ser engolido pela selva, e em especial no que restava de uma piscina a transbordar de águas estagnadas, onde dois adolescentes nadavam e desenvolviam os seus jogos, impregnando toda a humidade de uma violência mais do que difusa. Ora, está-se a descrever igualmente o cenário, é exactamente a mesma ruína, é a mesma piscina, de O Éden, a longa que valeu a Ramirez Pulido, 34 anos, ser considerado a revelação da Semana da Crítica de Cannes 2022, secção onde receberia um Grande Prémio.
Foi aí que o realizador de Bogotá voltou a filmar. E sem grande margem de erro, adolescência e violência podiam ser a súmula da "iconografia" do novo filme, como uma continuidade temática e visual. Como um regresso. Será mais do que isso, afinal: o cenário não é já só apenas um décor. Nele, Ramirez encontrou, edificou a "sua" metáfora que ele permite que engula todo o filme. O Éden começa por filmar, e se calhar acaba mesmo por filmar apenas isso, a progressiva invasão do filme pelo cenário, princípio e fim da mise-en-scène, algo de totalitário que se cola aos gestos do quotidiano, à matéria, às histórias concretas de amizade e de traição. Em si, essa operação é já da ordem da metáfora, porque se trata de filmar a Colômbia como prisão a céu aberto — a floresta, que tudo atrai e de onde ninguém consegue sair mesmo se não há muros que a circunscrevam —, como um estado mental produto de uma História que é responsável pelo interminável ciclo de violência ou pela impossibilidade de a isolar de qualquer gesto do quotidiano. Passando-se tudo num centro de recuperação para delinquentes juvenis, no meio da selva, e tendo tudo que ver com histórias que resultaram da experiência do realizador em ateliers de cinema que ele montou para adolescentes em dificuldades, dir-se-ia que do O Éden rapidamente nos esquecemos dessas histórias que fazem um quotidiano, mesmo que fixemos a sua principal fixação — a idealização/confronto com a figura de autoridade, o pai, um ressentimento que já nos apareceu no cinema sul-americano algumas vezes, vejam-se Desde Allà (2015) e La Caja (2021), do venezuelano Lorenzo Vigas —, progressivamente o realismo e as coordenadas espaciotemporais são preteridas pela abstracção e por uma lenta alucinação febril e nem sequer ficamos a saber o que quer que seja das personagens.
O ensimesmamento, a opacidade, dominam(-nas), até porque a garra visual de Andrés Ramirez Pulido é a primordial força expansiva nesta primeira obra — isto que é um valor pode também ser um limite. Enquanto aguardamos por outras manifestações deste talento, a verdade é que continuam colados à nossa memória os vestígios de uma lúgubre coreografia sobre a transmissão.