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Com uma acção situada em Chicago (EUA) durante os anos 1960, este drama segue um grupo de motoqueiros chamado Vandals. Durante o período de uma década, o espectador acompanha o percurso de alguns dos seus elementos, mostrando como um conjunto de pessoas pacíficas ligadas por um gosto comum, se vai lentamente transformando num perigoso gangue associado a todo o tipo de crimes violentos. Com Austin Butler, Jodie Comer, Tom Hardy, Norman Reedus e Michael Shannon nos papéis principais, este drama tem realização e argumento de Jeff Nichols e inspira-se numa história real.
The Bikeriders: as motorizadas e o vazio Luis Miguel Oliveira, Publico de 19 de junho de 2024 O objecto próximo do filme de Jeff Nichols são os Outlaws, um clube do culto da motorizada de Chicago, e a inspiração directa é um livro do fotógrafo Danny Lyon.
Jeff Nichols pode ainda não ter feito nenhuma obra-prima (embora Mud, de 2012, ande lá perto) mas não se lhe nega consistência nem um universo bem definido: aquela “outra América”, interior, rural, sem nenhum glamour especial, refém de credos pouco recomendáveis (o culto das armas, o fundamentalismo cristão, a desconfiança perante o Estado central), aquela América que ganhou uma identidade política no momento em que Hillary Clinton falou dos “deploráveis”. Em The Bikeriders anda-se numa variação disso, uma investigação de uma das mais peculiares formas da “marginalidade” e da “rebeldia” americanas entre os anos 1950 e 1970, a devoção pelas motorizadas e os clubes de motociclistas.
O objecto próximo do filme de Nichols são os Outlaws (com o nome alterado, na ficção, para Vandals), um clube de Chicago, um dos mais populares dentro do género (mesmo sem a projecção mundial de uns Hell's Angels, por exemplo), e a inspiração directa é desde logo uma questão de iconografia: um livro do fotógrafo Danny Lyon, publicado em 1967 (e chamado igualmente The Bikeriders), que fixava um documento da história dos Outlaws, do culto das motorizadas de alta cilindrada, e da forma como isso se convertia numa existência “anti-sistema”. A iconografia está, portanto, feita à partida, é uma base para o filme, não o seu ponto de chegada, e feita também através do cinema (dois filmes expressamente citados em The Bikeriders: o The Wild One de Laslo Benedek, peça crucial do mito de Marlon Brando, e, vindo de outra ponta do tempo daqueles velocíssimos anos 1950/1960 americanos, o Easy Rider de Dennis Hopper).
Nichols não vem fazer “mais iconografia”, vem aproveitar a que já existe e, com a ajuda de alguns lembretes, confiar que ela está presente no espírito do espectador. Até são relativamente poucos os planos de homens a cavalgar as suas motorizadas, na maior parte do tempo eles estão apenas a falar uns outros sobre como gostam de cavalgar as suas motorizadas.
É uma ficção disfórica, escavada dentro da iconografia para a contrastar, verdadeiramente um filme sobre a “motorcycle emptiness” (cf. Manic Street Preachers). E se é grande a tentação de fazer trocadilhos com os “rebeldes sem causa” e toda essa mitologia muito fifties e muito rock and roll dos anos 50, é preciso frisar que isto não são os jovens das classes médias urbanas descritos no filme de Nick Ray, antes algo bem mais próximo do que dantes se chamava o proletariado, eventualmente “lúmpen”.
Por falar em mitologia rock and roll, uma argúcia de casting de Nichols foi ter confiado um dos papéis principais a Austin Butler, que ainda vem cheio da aura do Elvis que interpretou no recente biopic de Baz Luhrmann. Mas um Elvis cabisbaixo, um Elvis que nunca se tivesse cruzado com a música, apenas com uma Harley-Davidson. É esse o registo do filme, um hedonismo de baixa extracção e de horizontes curtos, onde as motos são só uma forma de preencher um vazio. E de ter uma família, de fazer parte de qualquer coisa, de adquirir uma identidade.
É um “filme de família”, evidente, como costumam ser muitos filmes de gangsters. Nichols pisca o olho aos Goodfellas de Scorsese, através da narração em discurso directo e “voz off” - mas a voz não pertence a um protagonista que sempre tivesse querido ser um motociclista (como Ray Liotta sempre tinha querido ser um gangster no filme de Scorsese), antes à mulher dele (Jodie Comer), opção que também é inteligente pela forma como permite ter uma voz feminina a comentar aquele mundo hiper-masculino. De resto, quem vir o filme à procura dos Goodfellas estará condenado à decepção: nada daquela energia cocaínada, antes algo muito mais atordoado e sonolento (os “bebedores de cerveja” e os “fumadores de erva” são as duas grandes facções dentro do clube de motociclistas).
O movimento do filme lembra muito mais, em tangente, certos sentimentos coppolianos, tal como expressos nos Padrinhos, por exemplo. A passagem da “família” à “empresa”, a chegada de uma mentalidade diferente, mais fria, mais pragmática, mais corporate. É por isso que o líder do clube (Tom Hardy, num dos seus melhores papéis) parece estar sempre a ser ultrapassado, e a certa altura definitivamente ultrapassado. Nas últimas cenas do filme os Vandals já são uma associação criminosa, vocacionada e organizada para uma rentabilidade fora da lei. É, portanto, um filme sobre a mais repetida das histórias americanas, a de como a América perdeu a inocência.