CINECLUBE DE JOANE

Dezembro 2023
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Woody Allen
7 DEZ 21h45
de Hayao Miyazaki
14 DEZ 21h45
de Alexandre Koberidze
21 DEZ 21h45
de Kinuyo Tanaka
28 DEZ 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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14 21h45

O RAPAZ E A GARÇA Hayao Miyazaki Traz Outro Amigo Também

Enquanto decorre a Segunda Guerra Mundial, o adolescente Mahito, assombrado pela trágica morte da mãe, é deslocado de Tóquio para a serena casa rural da sua nova madrasta Natsuko, uma mulher que se assemelha muito à mãe do rapaz. Enquanto tenta adaptar-se, este novo e estranho ambiente torna-se ainda mais insólito com o aparecimento de uma persistente garça- cinzenta, que deixa Mahito confuso e atormentado ao tratá-lo por "o tão esperado". O Rapaz e a Garça foi anunciado como o derradeiro filme de Miyazaki, que co-fundou o Studio Ghibli, em 1985, onde realizou filmes como A Princesa Mononoke, O Castelo Andante ou O Meu Vizinho Totoro.

Título original: Kimitachi wa dô ikiru ka / The Boy and the Heron (Japão, 2023, 120 min.)
Realização e Argumento: Hayao Miyazaki
Interpretação (vozes): Soma Santoki, Aimyon, Ko Shibasaki, Masaki Suda, Takuya Kimura, Yoshino Kimura
Produção: Toshio Suzuki
Estreia: 9 de Novembro de 2023
Distribuição: Outsider Films
Classificação: M/12
O Rapaz e a Garça: a vida segundo Hayao Miyazaki Jorge Mourinha, Publico de 8 de Novembro de 2023 Será O Rapaz e a Garça, esta semana nas salas, o último filme do mestre japonês da animação? Na verdade, pouco importa: ninguém conta histórias como Miyazaki, como o novo filme confirma.
Faz agora dez anos, Hayao Miyazaki disse que As Asas do Vento iria ser o seu último filme, e que depois se iria reformar da animação. E, contudo, neste ano da graça de 2023, eis O Rapaz e a Garça, 12.ª longa-metragem do mestre japonês, inspirada por um romance de 1937 de Genzaburo Yoshino — do qual, no entanto, não é uma adaptação. E, aos 82 anos, o criador de Conan, “o rapaz do futuro”; do vizinho Totoro; da princesa Mononoke, da menina Chihiro e de tantos outros diz estar já a preparar um novo filme. Não seria caso único: quantos outros cineastas não disseram já estarem dispostos a arrumar a câmara para voltarem atrás com a palavra e fazerem um ou vários últimos filmes?
O que diferencia Miyazaki é não ser apenas “mais” um cineasta. “Miya”, como lhe chama o seu produtor de sempre, Toshio Suzuki, é um monumento, um guru, um farol; alguém que pegou numa estética e numa técnica e delas fez arte a um nível que mais ninguém alcança.
O Rapaz e a Garça, que chega nesta semana aos cinemas portugueses depois de ter arrebatado os espectadores japoneses, está cheio de momentos cujo “reconhecimento” por parte do espectador apenas sublinha como a obra de Miyazaki se “infiltrou” na animação de grande público do último meio século, mesmo aquela que aparentemente nada tem que ver com a fórmula “artesanal” do japonês.
John Lasseter, o “cancelado” fundador da Pixar, prostrou-se pública e repetidamente perante o altar Miyazaki, e com ele toda a equipa do seu (ex-)estúdio, que ainda hoje cita a matriz; e não são poucos os animadores nipónicos para quem o autor de Porco Rosso e Nausicaa é uma referência incontornável (ainda neste ano tivemos um bom exemplo disso com Suzume, de Makoto Shindo).
E, no entanto, perante uma nova obra do mestre, é impossível não citar o velho anúncio: o algodão não engana. Não há como confundir os sucedâneos (por muito bons que sejam) com o artigo verdadeiro.
O Rapaz e a Garça, dizíamos nós, é uma história original de Miyazaki, que faz a ponte entre a dimensão realista e mais abertamente autobiográfica de As Asas do Vento e os universos de fantasia onde muitas vezes as suas personagens se encontram. No seu centro está um rapaz adolescente, Mahiko, que, em plena Segunda Guerra Mundial, fica órfão de mãe num incêndio. Deslocado para a mansão rural da família da mãe, perto da fábrica de material aeronáutico do pai, Mahiko descobre um edifício abandonado num canto da propriedade, ao que consta mandado erigir por um tio-avô desaparecido, e também uma garça bisbilhoteira que parece estar a querer dizer-lhe qualquer coisa.
Não revelaremos muito mais, mas com desculpas por qualquer spoiler, o tal tio-avô, o “Senhor da Torre” que construiu a torre abandonada e entaipada que Mahiko descobrirá ser um portal para um outro universo (ecos, claro, de A Viagem de Chihiro), pode bem estar à procura do descendente que tome o seu lugar como criador de universos. E quando sabemos que o Studio Ghibli, a produtora que Miyazaki, Toshio Suzuki e Isao Takahata fundaram em 1985, foi reactivado propositadamente para O Rapaz e a Garça, não é surpresa que o filme pareça defender que Miyazaki é caso único e insubstituível, que mais ninguém consegue elevar o cinema de animação a píncaros estratosféricos do modo que ele o faz.
Sem sucessor
Já se percebeu, por esta altura, que o filho Goro, autor de três longas-metragens, não é o pai. A sua relação profissional atribulada levou-o a dizer que não está interessado em assumir a direcção do estúdio. Takahata, cúmplice de sempre e autor do Túmulo dos Pirilampos e de O Conto da Princesa Nagoya, morreu em 2018; já neste ano, o estúdio foi absorvido pela Nippon Television.
Em conversa com a correspondente em Tóquio do jornal Libération, Goro Miyazaki admitia: “Alguém como o meu pai não pode formar outra pessoa. Não é apenas uma questão de técnica, no cinema de animação; há inúmeros outros aspectos (maneira de pensar, criatividade, imaginação, sonho, etc.) difíceis de ensinar a alguém.” No mesmo texto, Toshio Suzuki admitia que “a ausência de um sucessor natural [para Miyazaki] é uma grande inquietação. Neste momento, não existe ninguém, nem no Ghibli nem no Japão como um todo”.
Nem pode existir, porque o que faz a diferença de Miyazaki é a recusa da fórmula industrial, a defesa apaixonada de um quase “serviço público” que se ancora num respeito profundo pela natureza e pela tradição e numa fé quase utópica na humanidade. Os seus filmes são aventuras da imaginação que querem abrir outros horizontes aos seus espectadores (crianças e adultos), que acreditam na capacidade gradual do ser humano para a bondade, para a sensatez.
Hoje, que temos um conhecimento cada vez mais aprofundado do cinema nipónico, é notável reparar como Miyazaki pode ser integrado na lista dos grandes cineastas do país do Sol Nascente, ao mesmo nível de um Ozu, de um Mizoguchi, de um Kurosawa (e O Rapaz e a Garça remeteu-nos para um dos seus clássicos, Viver). O novo filme, à imagem dos anteriores, atravessa múltiplas possibilidades de géneros e de tons para aprofundar os temas de que quer falar: o melodrama, a comédia, a aventura, a fantasia, o grotesco, o espiritual. Ou seja: a vida, tal como ela é, mas transfigurada na ficção, como só os grandes conseguem.
O que Miyazaki faz em O Rapaz e a Garça, como já o fazia em A Viagem de Chihiro ou As Asas do Vento, é usar a própria realidade como fonte de inspiração, como ponto de partida do sonho talvez utópico de construir um mundo melhor. Temos, de novo, um herói adolescente que traz esperança a um mundo em perigo, que tem de aprender a viver com a maldade que existe ao seu redor e inclusive dentro de si, e que ergue a chama da fé no futuro.
Temos, de novo, uma viagem iniciática, uma aprendizagem do mundo feita de modo alegórico e simbólico: Mahiko perdeu a mãe num incêndio, tem reservas quanto à tia que o marido tomou como esposa e que tem já um bebé a caminho, sente-se isolado no solar de família para onde os bombardeamentos o deslocaram. A sua exploração da torre é também uma tentativa de reconstruir a família perdida, de reencontrar a mãe de quem nunca se despediu, mas também de encontrar uma nova mãe. E, de algum modo, este é também um filme de despedida, quase como os de Ozu, na sua pacata aceitação budista do mundo tal como ele é: um longo adeus à adolescência, e à capacidade de se manter jovem toda a vida. Miyazaki tem 82 anos, não tem sucessor à altura, ninguém depois dele fará filmes como este.
Será O Rapaz e a Garça o último filme de Hayao Miyazaki? Talvez o seja (ao Libération, o filho Goro diz que consegue ver Miyazaki e Toshio Suzuki a trabalharem “mais dez anos” – e no momento em que ambos já cá não estiverem o Studio Ghibli deixará de existir). Mas perante todas as maravilhas que vemos neste filme — trabalho prodigioso de criação de imagem, de elegância de traço, de delicadeza de composição, com a atenção ao detalhe imperceptível que caracteriza o animador — apenas podemos estar gratos que ele exista. Arigato, Miyazaki-san.