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PROGRAMAÇÃO: Dezembro 2017

Filme
DEZ
7
Foto
Kathryn Bigelow

Filme
DEZ
14
Foto
Aki Kaurismäki
* TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM

Filme
DEZ
21
Foto
D. Amarante, C. Conceição, M. Mateus


Sala de exibições:
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão


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DETROIT, de Kathryn Bigelow

Sinopse

Em Julho de 1967, a cidade de Detroit (EUA) viveu cinco dias de protestos e violência. O tumulto social, que ficou conhecido como "12th Street Riot", decorreu devido às constantes tensões raciais e problemas de exclusão da população afro-americana. Uma rusga policial a um bar acabou por desencadear uma contenda com dezenas de afro-americanos que estavam reunidos no interior. A sua detenção foi feita sob o olhar de transeuntes que se apressaram a juntar-se nas ruas. Gerou-se uma espiral de violência entre polícia e manifestantes. O episódio transformar-se-ia num motim de enorme gravidade – um dos mais sangrentos da história dos EUA –, intensificado pela intervenção da Guarda Civil e do Exército. O resultado foi um banho de sangue.

Baseado em eventos reais na cidade de Detroit há meio século, um filme dramático sobre o racismo, com realização de Kathryn Bigelow e argumento de Mark Boal, dupla responsável pelo vencedor de seis Óscares "Estado de Guerra".

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Ficha Técnica

Título original: Detroit (EUA, 2017, 143 min.)
Realização: Kathryn Bigelow
Interpretação: John Boyega, Anthony Mackie, Algee Smith
Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Matthew Budman, Megan Ellison, Colin Wilson
Argumento: Mark Boal
Musica: James Newton Howard
Fotografia: Barry Ackroyd
Montagem: William Goldenberg
Classificação: M/16
Distribuição: NOS Audiovisuais
Estreia: 14 de Setembro de 2017

Preto no branco
Jorge Mourinha, Público de 14 de Setembro de 2017

Ao filmar um caso verídico da história dos conflitos raciais dos EUA, a autora de Estado de Guerra não consegue imprimir ambiguidade às convenções do filme de denúncia social.

Muito se falou do Óscar que Kathryn Bigelow levou para casa com o soberbo Estado de Guerra como “sinal” de qualquer coisa que estaria a mudar em Hollywood. E depois nada mudou: 00:30 - A Hora Negra, sobre a perseguição dos serviços secretos americanos a Osama bin Laden, dividiu tanto quanto Estado de Guerra fora unânime, e o novo Detroit deu por si no centro de uma polémica sobre a representação da comunidade negra americana no cinema. Sendo um filme sobre os motins raciais que abalaram Detroit em 1967, e sobre a violência policial e o racismo institucionalizado, não faltou quem viesse acusar Bigelow de se estar a apropriar de uma narrativa que não era sua, por ser uma realizadora branca a contar uma história negra. Mas esse não é verdadeiramente o problema do filme.

É inegável que Detroit é pensado em articulação com o momento actual da sociedade americana, em que, 50 anos depois dos motins, a questão da violência policial parece continuar na mesma. É ainda mais difícil negar que Bigelow e o seu argumentista, o jornalista Mark Boal, têm a ambição de, mais do que dar respostas, levantar questões. O mais perturbante de Detroit é o “limbo” em que, depois da violência, da injustiça, da indignação, da revolta, tudo fica. Como se tudo tivesse sido varrido para debaixo do tapete e a vida continuasse como se nada tivesse acontecido, numa repetição eterna da história. Desse ponto de vista, Detroit é um “caso exemplar”, usado como ilustração da contínua opressão de uma comunidade sem outro motivo que não seja a cor da pele, do constante abuso do poder por parte daqueles que dão por si autorizados a usá-lo.

É esse o problema do filme. Que, embora seja ambientado numa cidade literalmente em estado de guerra, com bairros devastados e a presença de tropas para manter a paz, é muito mais um filme de cerco e reacção, do que um filme de movimento e acção, que é aquilo onde Bigelow costuma brilhar. Aqui, há uma estrutura em três actos que cede à demonstratividade do “filme de problema”. Primeiro: a subida da tensão, à medida que a perseguição policial desregrada à comunidade negra a leva a revoltar-se contra os poderes instituídos brancos. Segundo: a explosão, com três polícias a aterrorizarem os hóspedes do motel Algiers em busca de um atirador inexistente, num longo, claustrofóbico e violento huis-clos. Terceiro: o rescaldo do incidente e as repercussões que ele teve nas vidas de quem dele foi vítima.

É verdade que os filmes anteriores já tinham algo dessa demonstração, mas ela era submergida no puro movimento da acção, da perseguição, do dever a cumprir. Eram filmes ambíguos, nas zonas cinzentas, humanas, entre o dever e a liberdade; aqui, embora Bigelow esteja permanentemente em busca dessa ambiguidade (através da figura de Melvin Dismukes, o segurança negro que procura o impossível meio-termo da coabitação), a própria história, passe a expressão literalmente a preto e branco, não lho permite. Detroit não é um mau filme — longe disso — mas sentimos que, para lá do nervo e da garra que Bigelow imprime à narrativa, da sua vontade de contar esta história como se fosse uma reportagem de uma zona de guerra, ela se deixou tolher pela sua origem e se refugiou nas convenções. Detroit nunca consegue existir para lá do seu programa de denúncia. E de Kathryn Bigelow esperamos sempre mais que isso.

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